Sunday, November 02, 2008

Geirangerfjord



UMA NOVENA EM ALTO MAR
domingo, dezembro 28th, 2008

por Gladson Fabian - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Meses de preparação com entrevistas e cursos resultaram em nove dias de uma experiência em um navio de passageiros na costa brasileira em 2008

Em meados de julho tomei conhecimento de oportunidades de trabalho em navios na costa brasileira, em anúncios colocados em um jornal de Curitiba. Fui até o local indicado e assisti uma palestra sobre vida a bordo, com uma agência de contratação de tripulantes e a promessa de conhecer vários lugares no mundo e um salário promissor seduziram-me a tentar uma vaga no processo seletivo da empresa.

A referida agência trabalha com três companhias marítimas, todas espanholas, com vários navios fazendo a costa do Brasil. Como eu tenho um bom domínio da língua inglesa, optei por fazer para uma companhia que exigia essa língua para trabalhar para eles.

A empresa paga salários em dólares aqui no Brasil e em euros na Europa, exceção entre as empresas, pois a maioria paga todos os contratos em dólares, aqui ou fora do país.

Após entrevistas com o senhor Nuno, um português diretor da companhia, fiquei sabendo que a posição de printer que eu gostaria de trabalhar precisaria de espanhol fluente, com domínio de escrita para trabalhar. O printer ou publisher é o profissional que edita o jornal de bordo, distribuído diariamente aos passageiros, com toda a programação do navio, coisa fácil mas depois percebi que cargos de maior confiança não são dados a iniciantes.

Fui então selecionado em outra posição em que tenho experiência, security guard, pois trabalhei durante 15 meses no Banco Central em Curitiba. Acontece que todos os crews (tripulantes) que atuam nessa área são de países asiáticos, exceto é claro, o chief (chefe), um espanhol chamado José Maria. E os asiáticos demoram a deixar seus postos e abrir vagas para sul-americanos.

Após a aprovação começa o calvário dos documentos. Um série de papéis são exigidos para o embarque (veja box), exames médicos, passaporte e um curso especialista ministrado por capitães-de-fragata, realizado fora de Curitiba.

Paraíba do sul é a próxima parada
domingo, dezembro 28th, 2008

Dia 19 de outubro de 2008, domingo. Saímos em dois ônibus de Curitiba, com aspirantes a crews de várias partes do sul do país. Depois de 15 horas de ônibus, chegamos a cidade de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, situada no interior do estado carioca. Interior? Sim, o curso de salvamento no mar, ironicamente, é realizado no interior do estado, com autorização da capitania dos portos do Rio de Janeiro. Os proprietários da empresa que ministra o curso são dois capitães da marinha, pessoas de fácil convivência e muito conhecimento. Passamos os dois dias seguintes com palestras sobre nomenclaturas usadas a bordo de navios, conhecimentos de primeiros-socorros e outros assuntos necessários para quem quer subir em um navio.

No terceiro dia fomos a um clube da cidade, onde teríamos a parte prática do que ouvimos, com treinamentos com bombeiros e uma enfermeira e práticas de uso do salva-vidas e bote, em uma piscina olímpica.

No treino com os bombeiros aprendemos como utilizar os extintores, para que serve cada um deles, com as enfermeiras tivemos lições de primeiros-socorros, salvamento de pessoas e atendimentos iniciais até a chegada de um profissional da área de saúde. E com os capitães tivemos que pular de uma prancha a três metros da piscina, com colete salva-vidas, emergir, nadar até um bote no meio da piscina, subir nele e saltar do outro lado e nada até a margem da piscina do lado oposto da prancha. Posso dizer que todos os que fizeram o teste saltaram, mesmo aqueles que têm medo de altura ou de saltar em lugares profundos, como eu.

Fim do curso, comemoração, festa de despedida, assinatura no certificado e muita alegria e cansaço no retorno a Curitiba, com mais 15 horas de ônibus.

A espera e o embarque
domingo, dezembro 28th, 2008

Do dia do retorno a Curitiba até receber a noticia do embarque foram 45 dias de espera angustiante. Dia oito de dezembro soube a noticia pela minha agente que eles precisavam de assistants waiter (assistentes de garçom) para o maior navio ancorado na costa brasileira, um navio espanhol com administração portuguesa. Animado com a possibilidade de embarque imediato, mesmo fora de minha posição, aceitei o cargo sem nenhuma experiência da profissão. Primeiro erro.

Após ir até a agência buscar minha carta de embarque, arrumei as malas e na quarta-feira à noite fui com minha namorada até a rodoviária para a dolorosa despedida. Choro e tristeza, mas empolgação pela possibilidade de novas experiências e um bom dinheiro, seis horas de ônibus até Santos, e eu estava pronto para o embarque. Ledo engano. Chegamos lá por volta das cinco e meia da manhã, eu e mais sete marinheiros de primeira viagem, prontos para o embarque. Aqui começava nossa espera. Após pegar um táxi até o terminal de embarque de passageiros no porto de Santos, ficamos esperando oito horas para embarcar no navio, devido a desorganização que é o embarque dos tripulantes.

O terminal abriu suas portas para o embarque por volta das oito e meia da manhã, mas tivemos de aguardar por horas em pé para passar pelos detectores de metal, pela conferência dos documentos na polícia federal até chegar a porta do navio. Um fato estranho ocorre minutos antes de entrarmos no navio: três jovens passam por nós, com malas e expressões de felicidade, gritando como loucos que finalmente estavam livres do navio. Diziam que aquilo não era vida e que finalmente estavam fora.. Um aviso?

Bem, deixamos a preocupação de lado e entramos no navio da companhia espanhola, onde tivemos que passar por um novo processo de preenchimento de formulários. Mais papéis, assinaturas isentando a empresa de qualquer problema, muito estranho.

Nossos exames médicos, que tanto exigiram de nós, se eu quisesse nem teria apresentado pois ninguém nos levou até o médico quando entramos no barco. Fomos levados até o roupeiro do navio, chamado Francis, um asiático que falava um inglês arrastado e de pouca compreensão. Primeiro problema: não havia roupas de trabalho para todos nós. Consegui completar meu uniforme cinco dias depois de embarcar, outra guria que chegou de Porto Alegre conseguiu uma calça com número duas vezes maior, outro ainda teve problemas com o blazer, assim como eu.

Mesmo assim fomos trabalhar. Acontece que antes disso, precisávamos de cabines, mas o navio havia chegado de Recife com problemas. Várias cabines estavam alagadas, devido a problemas no sistema hidráulico que se encarrega de esgotar os vasos sanitários.


A novela das cabines começa
domingo, dezembro 28th, 2008

Cinco de nós encontraram problemas com cabines e fomos temporariamente colocados em cabines de passageiros. Apesar do problema, ficamos felizes em ter um local confortável para descansar, então pegamos nossas malas e fomos direto para essas cabines.

Existe uma proibição aos tripulantes em circular pelas áreas destinadas aos passageiros, mas no nosso caso isso não funcionaria, pois precisávamos passar por elas para chegar as nossas cabines, que ficavam no interior do navio. Ainda deslumbrados com os 12 decks (assim são chamados os andares dentro da embarcação) do navio, fomos tomar banho e descansar, após um rápido passeio pelas dependências para situarmo-nos de onde estávamos.

Muitas leis dentro do navio não são tão estritas, e entre elas está essa de se mover por áreas de acesso restrito, pois todos os dias haviam comportas fechadas, o que nos obrigava a atravessar áreas de passageiros para chegar aos locais de trabalho.

No dia seguinte, após perceber que não arrumariam logo uma cabine para mim, e que se eu deixasse nas mãos deles acabaria em um quarto com filipinos ou alguém com cultura muito diversa da nossa, descobri a primeira malandragem que é necessário para sobreviver dentro de um local assim. Fui até a crew purser, uma espécie de secretária que é responsável pelos documentos do pessoal, uma asiática arrogante mas de pouca habilidade em perceber quando estão agilizando as coisas por conta própria, passei a ela os documentos necessários e dei o número da cabine onde estava um recém chegado que tenho a felicidade de chamar amigo, chamado Davi. Tinham dado a ele uma cabine para dois, mas ele estava sozinho e, graças a já referida desorganização, nem eles sabiam quantos haviam em cada cabine. Com o documento e o número da cabine, consegui meu crew pass, um cartão de acesso a cabine e acesso para fora do navio quando estivesse de folga.

Resolvido o problema da cabine, já descansado começa o trabalho. Primeiro dia, dezesseis horas de trabalho, com algumas horas de intervalo, mas como tínhamos de atravessar o navio de ponta a ponta (minha cabine ficava no deck 01, o trabalho no deck 12 ou no deck 04), gastávamos pelo menos dez minutos para atravessar o navio, às vezes mais do que isso pela demora nos elevadores. Começava a perceber algumas coisas.

Devo registrar aqui que, de minha parte não houve treinamentos para a função, nem perguntas sobre minha experiência na função, mas todas as noites tivemos de ouvir chamadas dos portugueses a respeito das falhas nos trabalhos. Felizmente, tive a oportunidade de trabalhar com um grande waiter, chamado Vitor Córdoba, colombiano com vários contratos de trabalho, que ensinou tudo com muita paciência e esmero.

Em uma ocasião, vi um amigo ser humilhado pelo português responsável pelos contratos por não saber todos os pratos que havia na cozinha. Acontece que o rapaz havia entrado comigo no navio, não deixaram ele ter acesso aos pratos e queriam que ele soubesse todos os pratos que havia no cardápio!

Aqui vale uma ressalva: Mister Sérgio, responsável pelo setor foi uma exceção entre os nossos chefes. Educado, competente e comunicativo, sempre foi acessível na medida do possível. Outros nem tanto.

Mas voltemos as cabines. O esperado é que elas sejam pouco espaçosas e isso se confirmou. Uma TV antiga com quatro canais de filmes sem legenda nos levava um pouco de distração, camas razoáveis (sugiro que se for embarcar, que leve travesseiros) e toalhas e roupas de cama são fornecidas aos crews, mas para lavar o uniforme e essas roupas do navio cada setor tem dias e horários específicos na lavanderia. A vantagem é que esse material é lavado por eles e o crew precisa se preocupar apenas com as roupas pessoais. Para essas, há duas alternativas: ou lava-se nas máquinas disponíveis na lavanderia (nem cuecas secam no banheiro da cabine!) ou se paga para um filipino fazer isso. O preço varia de acordo com a cara do cliente, entre 20 e 40 dólares. Pechinche sempre.

O banheiro das cabines é uma história à parte. Acontece que o navio tem 20 anos de uso e foi restaurado para uso esse ano, e com isso vieram problemas de infra-estrutura. Desde o primeiro dia que entrei na minha cabine, até o dia de minha saída, o vaso nunca funcionou. Pior, a água subiu e transbordou no banheiro, deixando um cheiro terrível. Foram cinco pedidos de manutenção, no último ouvimos de um dos portugueses que não poderia fazer nada e que nós não éramos prioridade. Acontece que a merda já estava saindo pelos lados.

Durante os dois dias que viajamos de Santos a Salvador, trabalhamos feitos loucos, pois o navio ficou todo esse tempo em alto mar. E duas centenas de banheiros de passageiros mais outros não sei quantos de tripulantes estavam com o mesmo problema do nosso banheiro. Vasos transbordaram nos carpetes, ralos de chuveiro entupiram e muitas reclamações foram feitas. Uma promessa de que o problema seria sanado e o navio de luxo sairia de Salvador em perfeitas condições foi dada aos passageiros, que desceram a passeio em Salvador pela manhã e voltaram a tarde com os mesmos problemas em suas cabines. Muitos trocaram de cabines, mas quase duzentos passageiros e alguns crews desceram em Salvador, revoltados com as condições da luxuosa embarcação. A vigilância sanitária entrou no navio, a polícia federal também, mas assim mesmo o navio partiu com os problemas que chegou. Outro fato estranho.

Durante a viagem, passageiros revoltados com as condições do navio buscaram agredir o capitão no saguão do deck principal, sendo impedidos pelos seguranças. A viagem segue tensa..

Mais explicações, muitos boatos e apenas uma certeza: eles ainda não sabiam o que fazer com o sistema hidráulico das cabines. Ao passar pelos corredores inferiores, sente-se o cheiro de água podre, mas ninguém diz nada. Meus pés, que como de todos os assistant e waiters tem bolhas, tem que pisar em chão sujo no banheiro para tomar os banhos necessários.

Ao chegar na bela cidade de Ilhéus, tenho duas horas de folga e decido tentar chegar a praia. Não deu, pouco tempo e uma certa distância fazem com que eu e minha colega Renata desistamos da ida a praia. Muito calor e desânimo se abatem agora.

Outra noite no restaurante, após passar o dia recolhendo pratos sujos, copos, talheres e servindo bebidas no deck 12, onde fica o buffet, e o trabalho noturno se estende das 18 horas até às duas da manhã. Os portugueses todas as noites nos fazem parar o trabalho, para dar suas palestras, durante 15 à 20 minutos antes da abertura do restaurante, onde pouco se aproveita. Esse pouco pode ser dado a chefe de cozinha, uma brasileira chamada Teresa, muito competente e com grande conhecimento na área.

A melhor parte da noite sempre vem após o fechamento do restaurante. Depois de muito trabalho, todos se dirigem a cozinha, onde jantamos e sentamos para conversar no crew bar, área de lazer comum a todos os tripulantes. Lambemos nossas feridas, tomamos uma cerveja e por volta das três horas nos recolhemos as nossas cabines.

Na média que fiz das horas dormidas em nove dias dentro da embarcação, pude ver que meu tempo de sono ininterrupto seria de cinco horas por noite, pouco para recuperar os pés e a mente. O banheiro sujo, as dificuldades em arrumar de forma organizada os uniformes, os horários de trabalho, a falta de educação de alguns superiores, a rota do navio que nos dava mais de três dias de navegação em alto mar sem paradas (dois dias de Santos a Salvador, mais um dia de Ilhéus a ilha privativa), a mudança de fuso horário (o nordeste não tem horário de verão) semanalmente e a consciência que o valor financeiro não era tão promissor fizeram eu decidir pela saída da embarcação. Entre os brasileiros, muitos estavam decididos a sair, ou dentro de um mês, ou no final da temporada brasileira, e poucos queriam trabalhar na Europa. Não sei quantos ficarão, mas comigo outros cincos decidiriam sair em Santos.

Para quem quer trabalhar como waiter ou assistant waiter (garçom ou assistente), vale ressaltar que o valor oferecido como salário é pago somente se as “tips” (gorjetas) não ultrapassam o valor oferecido. Em oito dias de trabalho (o primeiro dia não contou) recebi o valor de 420 dólares, mas descontaram na minha saída o uniforme que devolvi integralmente, mais 300 dólares que, segundo a purser, eram despesas de reembolso para trazer outra pessoa no meu lugar. Mas espere um pouco, eu não dei despesas nenhuma para eles, nem de passagens aéreas nem rodoviárias! Como disse um amigo castelhano, todo navio é negreiro. Restaram 74 dólares de lucro e a alforria ao final da viagem. Assim como vimos dez dias antes os rapazes saindo alegres de dentro do terminal de embarque, agora era nossa vez.

Dez horas de espera para pegar o ônibus, algumas cervejas em um shopping de Santos e mais três horas de conversa com um nova-iorquino e sua esposa na rodoviária de Santos, onde recebi o primeiro elogio desde que comecei essa empreitada. Keith, o nova-iorquino de 52 anos, elogiou meu “accent” (sotaque) e disse que meu inglês estava muito bom. Senti que podia ir em frente e que 2009 seria um ano melhor. E, apesar de todos os problemas, quero no fundo do coração que todos os problemas que passei se resolvam (principalmente os banheiros!), pois deixei bons amigos dentro daquela embarcação.