Saturday, October 25, 2008

Foto com amigos de curso para "crews", no Rio de Janeiro, em outubro de 2008





DOCUMENTAÇÃO, BUROCRACIA E DICAS ÚTEIS
domingo, dezembro 28th, 2008

Para aqueles que desejam fazer da vida a bordo uma carreira, um processo lento e que requer muita paciência se faz necessário. Primeiro, não é necessário experiência para os cargos inferiores, mas se souber fazer o mínimo ajuda. Registro de identidade, cpf e currículo com a função pretendida (em inglês) são os documentos iniciais. A carteira de vacinação internacional com carimbo de vacinado contra febre amarela pode ser conseguida em aeroportos e a vacina tomada em postos de saúde.

O passaporte deve estar em dia e caso não tenha é necessário ir a Policia Federal fazer. Não leve foto a própria polícia faz ela na hora e depois de duas semanas de entrar com o pedido o documento estará pronto.

Também é preciso fazer o curso STCW-95, exigido para todos os que trabalham em embarcações em alto-mar. O curso é organizado pelas agências de recrutamento e o preço varia de R$ 550,00 à R$ 700,00, mais despesas de viagens. Como moro em Curitiba, gastei em torno de R$ 1600,00 com todas as despesas, inclusive as passagens de ida e volta a Santos, que não são reembolsadas pelas companhias. Também é necessário um certificado de antecedentes negativos da Polícia Federal, que pode ser impresso diretamente pelo site da PF.

Ao levar suas malas para o navio, deixe de lado todo o excedente. Se preocupe menos com calças e blusas e calções e mais com um sapato bem confortável, da cor preta, muitas meias pretas (muitas mesmo!), duas ou três dezenas de roupas de baixo, de sete a 15 camisetas brancas para usar por baixo do uniforme, pois somos obrigados a usar uma espécie de “espartilho”, nome que dávamos a um protetor de coluna que coça muito se usado direto sobre a pele. Devo ressaltar aqui que ele funciona, não tive dores nas costas em nenhum dia de trabalho, mesmo com todo o peso que carregávamos, durante toda a noite.

Leve chinelos para uso na cabine, mas também um tênis confortável, pois não é permitido andar de sandálias pelo navio nas horas de folga. Tênis branco, apenas para aqueles que forem trabalhar como bartenders ou staff (terceirizados), pois os cleaners (domésticos que limpam as cabines) e o pessoal do restaurante usam sapatos pretos.

Cortem os cabelos antes de embarcar e as mulheres levem prendedores, pois é proibido trabalhar de cabelos soltos e os preços de corte de cabelos dentro do navio são em dólares.

Quando embarcar receberá um “crew pass”, para acesso a sua cabine, com número de tripulante escrito nele e foto. Nunca perca ele, pois ele também dá acesso a gastos no crew bar, onde o atendente nunca olha a cara do cliente. Outro documento que receberá é o cartão de controle para treinamentos de salvamento no mar. È preciso decorar esse número, pois há treinos constantes e quando seu número é anunciado pelas caixas de som você deverá ir até o local indicado no cartão. Mas isso tudo será explicado pelo chefe da segurança a bordo, em uma palestra explicativa..

Pra aqueles que não se importam em não ganhar gorjetas mas um salário fixo, sugiro que busquem vagas como bartenders ou staff, pois tem horários mais fixos. Vida dura, mas não carregam tanto peso como cleaners, assistants e waiters. Segundo Reinaldo e Flávia, um casal que encontrei na rodoviária de Santos, vindos de outra embarcação e com quatro contratos de experiência, os bartenders de certas companhias recebem gorjetas por bebidas vendidas, o que não era o caso da embarcação que estava, onde os pacotes de viagens incluíam tudo aos passageiros. A dica deles é para procurar navios de companhias norte-americanas, que fazem o Caribe e Europa, pois são os melhores de trabalhar.

As mulheres devem ter outro cuidado. Muita paciência e jogo de cintura, pois os homens no navio estão em sua maioria há um bom tempo sem ver uma mulher, e vi ou ouvi das garotas as reclamações que alguns superiores ou colegas de outras nacionalidades eram muito atrevidos em suas cantadas.

Dependendo da função e escala de serviço, o tripulante tem de três a cinco horas no período da tarde para conhecer os portos onde o navio aporta. Recomenda-se sempre que o “crew” não saia sozinho, sempre tenha alguém junto, para eventuais emergências.

A comida, diferente do que disseram, é muito boa no geral. Salvo alguns pratos típicos da Ásia, com tempero forte e que causam desarranjo intestinal nos brasileiros, a maioria dos pratos são muito bons.

Assim como a maioria, não tive problemas de enjôos ou vômitos, sofri apenas com tonturas nos três primeiros dias. Não tome nada por conta própria, há médicos a bordo que atendem muito bem.

Leve protetores solares e labiais. Não beba muita água, substitua por frutas ou suco de limão, que é fornecido o dia todo em máquinas para os tripulantes.

Última dica: os nossos “hermanos” são muito unidos e se precisarem sacanear um brasileiro para salvar a pele o farão. Vi durante toda a semana waiters e assistants de outras nacionalidades “emprestando” talheres, copos, paneiras e saleiros da mesa alheia para preencher o chamado “set up” de suas mesas para que a pessoa responsável pelo fechamento do restaurante desse um “ok” com tudo certo na sua área de trabalho. Os superiores fecham os olhos para isso e deixam o caminho aberto para a competição desleal. Eu tive a felicidade de trabalhar com um cara muito organizado e que, por ser colombiano e com longa experiência dentro de navios não precisava se preocupar com roubos de material de suas mesas, mas nem todos podem ser dar a esse luxo. E busque sempre uma boa convivência com os membros da cozinha, pois os asiáticos trabalham muito e, se você for educado com eles, terá sempre bons colegas de viagem nesses estranhos de cultura tão diferente, mas de fácil convivência.

“Especial Navio” por Gladson Fabian Marques - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

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